viernes, 1 de agosto de 2014

Hilda Hilst. Diez llamados al amigo.



Hilda Hilst.

Diez llamados al amigo.


I

Si te parezco nocturna e imperfecta
mírame de nuevo. Porque esta noche
me miré, como si tú me miraras.
Y era como si el agua
desease
escapar de su casa que es el río
y apenas deslizándose, sin tocar la orilla.
Te miré. Y hace tanto tiempo
entiendo que soy tierra. Hace tanto tiempo
espero
que tu cuerpo de agua más fraterno
se extienda sobre el mío. Pastor y nauta.
Mírame de nuevo. Con menos altivez
y más atento.



II

Ámame. Es tiempo aún. Interrógame.
Y yo te diré que nuestro tiempo es ahora.
Espléndida avidez, basta ventura
Porque es más vasto el sueño que elabora
Hace tanto tiempo su propia tesitura.
Ámame. Aunque te parezca
Demasiado intensa. Y áspera.
Y transitoria si tú me repiensas.




III

Si rehacer el tiempo, a mí, me fuese dado
Haría de mi rostro de parábola
Red de miel, oficio de magia
En aquella encantada librería
Donde los raros amigos me sonreían
Donde a mis ojos eras torre y trigo
Mi todo intrépido de Poesía
Te tomaba. Felicidad, amigo,
Tan extremada y amplia
El amor habría sido un alegre encanto.



IV

¿Mi medida? Amor.
Tu boca en la mía
Inmerecida.
¿Mi vergüenza? Verso
Ardiente. Y mi cara
Reverso soñador.
¿Mi llamado? Sagitario
A mi lado
Estrechamente unida a Tauro.
¿Mi riqueza? Búsqueda
Obstinada, tú presencia
En todo: julio, agosto
Zodíaco anticipado, página
Ilustrada de revista
Editorial, periódico
Telaraña quebrada.
En cada rincón de la casa
Fuerte evidencia
De tu rostro.




V

Nosotros dos pasamos. Y los amigos
Y toda mi alma, mi castigo
De no verte nunca, tu desamor también
Ha de pasar. Soy apenas poeta
Y tú, lúcido, hacedor de palabra,
Inconsentido, nítido
Nosotros dos pasamos, porque así es siempre.
Y singular y raro este tiempo inventivo
Rodeando la palabra. Trébol oscuro
Desmemoriado. Coincidido y ardiente
No mi tiempo de vida tan madura.



VI

Fui Julio sí. Y nunca más lo olvidaré.
El oro en mí, la palabra
Irisada en mi boca
La urgencia de decirme en el amor
Tatuada de memoria y confidencia
Septiembre en enorme silencio
Distancia mi rostro. Tú preguntas:
¿Julio todavía se acuerda de mi?
Los amigos me dijeron que Saturno
Se rehace éste año. Y es tigre
Y es verdugo. Y que los amantes
Pensativos, glaciares
Se quedan sordos al canto conmovido
Y siento así, amor
¿De qué me sirve a mí, decirte más?




VII

Sonrío cuando pienso
En qué lugar de la sala
Guardarás mi verso.
Distante
De tus libros políticos?
En el cajón superior
Más próximo a la ventana?
Sonríes cuándo lees
O te cansas de ver
Tamaña perdición
Amas la chispa
En mi rostro maduro?
Y te parezco hermosa
O apenas te parezco
Más poeta tal vez
Y menos seria?
O qué piensa el hombre
Del poeta? Que no es verdad
Mi propia embriaguez
Y que me prefieres amiga más pacífica
Y menos aventurera?
Y que es casi imposible
Guardar en tu sala
El vestigio pasional
De mi lenguaje?
(te) Parezco loca?
(te) Parezco pura?
(te) Parezco niña?
O que realmente es cierto
Lo que nunca me has oído?



VIII

De lunas, locura y aguacero
Todas las noches que no fueron tuyas.
Amigos y niños tiernos.
Intacto mi rostro-pensamiento
Intacto mi cuerpo y tanto más triste
Siempre en busca de tu cuerpo perfecto
Líbrame de ti. Que reconstruya
Mis pequeños amores. La ciencia.
Que me permite amar
Sin amargura. Y que me da enorme incoherencia
De desamar, amando. Y te recuerda
-hacedor de disgusto-
Que yo te olvide.



IX

Que el poeta en mí siempre moribundo
Se tienta en repetir salmos:
Cómo tú sabes, arquitecto del tiempo
Cómo me conoces, sin que lo sepa?
Frialdad en tu gesto, mi ceguera
Y en el momento de puro ardor
Si a tu lado me ves. Las tardes
Enlazadas. Tardes que yo he amado,
Materia de soledad, intimas, claras
Sufrir la somnolencia de las aguas
Como si el barco siempre se negara
Liquidez. Mis tardes dilatadas
Sobre-existiendo sola.
Porque la noche retomó mi verdad:
Tu contorno, tu rostro álgido sí
Y por eso, quien sabe, amado.



X

No es sólo un vago sentimiento construido
Lo que me hace cantar enormemente
El recuerdo de nosotros. Es más. Es como un soplo
De Fuego, fraterno y sincero, es ardiente
Es como si la despedida se disfrutara
Al saber
Que hay entre nosotros, un espacio
Aromático, donde no vive el adiós.
No es sólo la vanidad de querer
Que a los cincuenta
Tu alma y tu cuerpo se enternezcan
De la gracia, o precisión del poema. Es más.
Y porque todo éste amor me perdona
Te perdonaré la indiferencia.



(Traducción: María Florencia Milani)



Dez chamamentos ao amigo

I

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III

Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.

IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI

Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

IX

Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.

X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinqüenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença. 

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